A Mágica das Sinergias

 

Sinergia é a combinação das energias em sua união. A expressão em diversidade é natural para o campo relativo da vida, mas essa diversidade compacta-se em uma direção quando é unida de forma inteligente e harmoniosa para criar novas unidades de plenitude. Portanto, um buquê de flores tem o seu charme devido a uma seleção de diversas flores ou um prato encontra o seu sabor através da combinação de diferentes outros temperos combinados pela cabeça criativa de um bom chefe de cozinha. Quando elementos diversos combinam-se de uma forma inteligente, eles enaltecem a singularidade de cada um, então o total torna-se mais do que uma simples combinação de partes matematicamente acrescentadas.

 

Dr. Jean Valnet, um dos fundadores da aromaterapia moderna, já constatou que a resistência elétrica dos óleos essenciais, combinadas, era facilmente dobrada ou triplicada quando comparada a de óleos sem mistura.

 

Um bom perfumista natural usa essa lei sinérgica para criar experiências olfativas que são, muitas vezes, surpreendentemente diferentes do que os dos elementos de uma única fragrância combinados. As notas de topo como as dos óleos de Bergamota, Capim Limão, e Eucalipto com seus compostos altamente voláteis, combinadas com as notas de coração presentes na Lavanda, Salva Sclarea ou Petitgrain, são transformados ou até mesmo ‘encantados’ pela notas de base como Olíbano, Jasmim, Sândalo ou Vetiver. Uma boa fragrância, feita através de compostos naturais, nunca tem uma experiência olfativa de um ‘odor único’, mas é viva pela mistura complexa de fragrâncias, unidas através de uma consciência refinada e um olfato treinado. Isso, então, manda mensagens olfativas para o cérebro por horas e até mesmo dias, então há o deleite em uma sinfonia de uma experiência completa através da percepção cerebral desses componentes.

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As sinergias para as terapias

 

No aprendizado diário sobre Aromaterapia e as notas das fragrâncias, percebemos que os óleos essenciais podem ser misturados para diferentes propósitos. Um deles é criar sinergias para terapia, ou, podemos dizer, para melhorar o bem-estar, a saúde e a longevidade. Agora, com este tópico ‘fragrância para a vida’, podemos seguir uma série de abordagens diferentes, sendo algumas mais simples e outras um pouco mais complexas.

 

Uma maneira simples seria entender que certos compostos bioquímicos naturais encontrados nos óleos essenciais podem ter determinados efeitos e as misturas dos óleos que contém os mesmos compostos em sua maioria. A similaridade básica no perfil bioquímico dos óleos essenciais de Ho Leaf, Pau Rosa, Manjerona é que todos eles apresentam um alto percentual de Linalol, um álcool monoterpênico, fazendo uma boa sinergia e, ainda, podemos extrair as suas vantagens tonificadoras e antibacterianas através da mistura desses óleos. No entanto, não devemos nunca esquecer do efeito curativo dos componentes desta planta, não somente conectados com os quimiotipos dominantes, mas também com o que os perfumistas chamariam de impurezas ou oligoelementos, essas minorias poderosas geralmente escondidas em relação aos compostos principais

 

Outra abordagem seria misturar os óleos do mesmo gênero ou grupo vegetal e com esse toque, o ‘campo de planta’ adjacente ou a ‘ressonância’ é construída nesse grupo pela própria natureza. Por exemplo: combine diferentes tipos de óleos de Lavanda, Eucalipto ou Manjericão, etc. Apesar de muitas vezes eles serem diferentes em sua bioquímica e nas suas notas olfativas, todos esses óleos do mesmo gênero seguem uma linha oculta de semelhanças, o que aumenta o efeito terapêutico desejado.

 

Similar a esse método, é o de combinar os óleos da mesma espécie, mas de diferentes ‘órgãos da planta’. Por exemplo: para combinar o óleo da flor de Neroli com o da casca da Laranja Amarga e com o da folha de Petitgrain, que derivam todos da mesma árvore da Laranjeira Amarga. Outro exemplo é utilizar o óleo da raiz, da folha e da semente de Angélica para criar uma mistura sinergética para aumentar os efeitos ansiolíticos desse poderoso óleo.

 

Mas simplesmente combinar óleos de diferentes espécies mostra, muitas vezes, um poder sinérgico impressionante:

 

“Num artigo sobre a atividade antimicrobiana dos óleos do dente-de-alho e da rosa, ambos mostraram alguma eficiência nesta atividade contra uma série de bactérias e fungos. A combinação dessas duas plantas mostrou-se ainda mais eficaz nos efeitos antimicrobianos contra várias estirpes de bactérias. um efeito sinérgico contra Candida albicans, mas causou um efeito antagônico contra Aspergillus niger. Os autores concluíram que neste estudo que a combinação dos óleos de dente-de-alho e de rosa pode ser útil para combater microorganismos específicos na medicina na na indústria alimentícia.” (Fonte: A Escola de Estudos Aromáticos)1.

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Seja guiado pelos conhecimentos ancestrais – além dos sintomas

 

Se também seguirmos as informações acumuladas pela medicina ancestral, geralmente baseada nos conhecimentos dos anciãos, podemos encontrar as dicas que nos permitirão deduzir as leis elementares da Natureza. A Ayurveda, a sabedoria da longevidade dos ancestrais indianos, nos diz que devemos olhar para os doshas das plantas e para a fisiologia humana para poder balancear todo o sistema. A fisiologia, que tem a tendência em ser quente ou – em desequilíbrio – se superaquecer (Pitta dosha), não se daria bem com os dominantes ‘Óleos-Pitta’, como Tomilho, Orégano ou Segurelha, mas sim com misturas refrescantes como Hortelã, Lavanda e Eucalipto, por exemplo. Por outro lado, se queremos alimentar o elemento Fogo (Agni), no sistema digestivo, devemos usar óleos que contribuem para uma elevação do Pitta no corpo humano, como Canela, Manjericão, Botão de Cravo, Anis ou as outras mencionadas acima.

 

Também é bom misturar óleos com a finalidade de fortalecer o organismo de uma única vez. Uma mistura para ajudar na digestão, por exemplo, não servirá apenas ao estômago e ao intestino, mas também agirá no fígado e na bexiga. Já uma mistura para a insônia, além de trazer relaxamento e acalmar os nervos, também será auxiliar em problemas intrínsecos, como depressão e emoções negativas. Essa é a característica geral da Aromaterapia sinérgica: atacar em diferentes dimensões o mesmo problema e não, como a alopatia, focar apenas em um sintoma sem considerar os outros. Podemos dizer que não fornecemos cortisona para erupções cutâneas, mas procuramos a fonte do problema, que está escondida, e tentamos através da sinergia, tratar os diferentes sintomas nos níveis psíquicos e fisiológicos ao mesmo tempo.

 

Não devemos esquecer que um óleo essencial é, por si só, formado numerosos compostos bioquímicos. Durante milhões de anos, a Natureza através da criação de toda a flora, inventou uma série de elementos que, quando combinados sinergicamente em alguma planta, podem ser úteis para uma série de coisas simultaneamente. Cada planta e cada óleo tem uma série de efeitos curativos pertencentes ao seu campo energético, demonstrando-os através de suas cores, formatos, tamanhos, odores, compostos, etc. Esses compostos se encaixam ao organismo humano de uma maneira intrínseca, sob medida, e podem preencher certos ‘vazios’ criados pela fraqueza ou doença com extrema fluidez em todo o organismo. A estrutura complexa desses compostos também é a razão para seus múltiplos efeitos curativos em um mesmo óleo essencial. O Óleo de Lavanda foi considerado uma panaceia durante séculos pelo povo de Provence, pela sua eficiência em cortes, queimaduras, dores de cabeça, insônia, eczema, indigestão, bronquite, febre e uma série de outros problemas. A Natureza é, por si só, o melhor exemplo da combinação de certas moléculas para criar efeitos sinérgicos poderosos. Um bom exemplo disso é o Capim-limão.

 

“As propriedades bactericidas desse óleo essencial foram estudadas e constatou-se que em dois dos três componentes principais são métodos cromatográficos e de espectrometria de massa. Enquanto os componentes alfa-citral (geranial) e beta-crital (neral) desencadeiam uma reação bactericida em organismos gram-positivos e gram-negativos, o terceiro componente, o mirceno, não mostrou tal reação isoladamente. No entanto, o mirceno fornecido potencializou as atividades da planta quando combinado com os outros dois componentes identificados.

 

Onawunmi, et. al. on the “Antibacterial constituents in the essential oil of Cymbopogon citratus”.

 

Por outro lado, os tratamentos químicos das plantas com substâncias como herbicidas, pesticidas, fertilizantes químicos, por exemplo, comprovadamente mostrou uma tendência à perda da riqueza fitoquímica dos componentes e, por sua vez, a diminuição dos múltiplos efeitos de cura da planta.

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A riqueza dos componentes e o isolamento dos “ingredientes ativos”

 

Agora, se analisarmos esses pequenos exemplos, encontraremos que a principal razão para a abordagem sinergética na Aromaterapia moderna é aumentar a versatilidade em uma única mistura. O objetivo é criar um efeito específico e, para fazê-lo, precisamos introduzir a complexidade de uma maneira inteligente, sem desarmonizar o equilíbrio natural. Diferentemente da abordagem alopática, que tenta isolar os princípios de uma planta e, num segundo passo, sintetizá-lo, a Aromaterapia vai de mãos dadas com a Mãe Natureza, honrando-a e mantendo a complexa infinidade de suas criações.

 

Isolar certos componentes e dizer que eles são tóxicos é uma atitude infantil de muitos farmacólogos modernos para tentar provar que alguns óleos essenciais são perigosos. A Natureza, com toda a sua complexidade, já proveu todos os meios para equilibrar certos componentes em relação a outros, de uma forma que a totalidade dos compostos de um óleo é inofensiva para o ser humano – desde que a sua dosagem seja respeitada. O que disse Hipócrates? “Tudo é tóxico – nada é tóxico – tudo depende da quantidade”. Visto através do ângulo terapêutico, a complexidade aumenta a chance de cura e previne possíveis efeitos colaterais. É claro que, com tantos compostos na Natureza, milhares deles ainda não foram estudados considerando as suas propriedades curativas; não foram analisados cientificamente; não foram completamente entendidos na sua interdependência e dinamismo.

 

Isso não nos dá o direito de presumir que eles não são úteis. Ainda melhor por se dizer: quase toda a fisiologia humana e as suas doenças não tiveram suas reações e possíveis ressonâncias observadas em relação às plantas medicinais.

 

Assim sendo, por aumentar a complexidade em uma mistura terapêutica, damos à natureza humana uma chance maior de se alinhar com os princípios da diversidade a Natureza e, então, aumentar a probabilidade de cura. É como entrar em um castelo com uma série de salas, corredores e quartos fechados: quanto mais chaves tivermos, maior serão as chances de acessar as portas e passagens secretas.

 

Esse é o motivo pelo qual, ao criar as fórmulas aromaterápicas, ou ao encontrar a certa para si, você pode sempre contar com a inspiração da Natureza e daqueles que estão conectados com toda esta plenitude.  Nada precisa ser inventado ou combinado aleatoriamente, só precisamos fazer uma ‘leitura apropriada’ disso tudo: uma sinergia eficiente deve ser baseada na medicina e na experiência ancestral e confirmada – se possível – pelas pesquisas da Aromaterapia moderna, com testemunhos confiáveis e, é claro, um profundo estudo do assunto por si só. Essa mistura entre o moderno e o antigo parece ser o melhor e mais poderoso caminho para a medicina alternativa de hoje e do amanhã.

 

Dr. Malte Hozzel.

Tradução: Thiago Tomaz.

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